Crítica

  Oscar Wilde vive no Século XXI



Não é a transformação da sociedade ou o redimensionamento de valores no tempo, que hão de definir a forma como se deva olhar o trabalho levado ao palco do Centro de Cultura Adonias Filho, nos dias 19, 20 e 21 de abril. Mais de um século de seu lançamento, a vigorosa temática envolvendo os valores humanos em sua fragilidade e limitações, sensualidade e morte, da Salomé, de Oscar Wilde, encontrou, inegavelmente, uma resposta atual na encenação realizada pelo Grupo de Teatro Vozes, em produção e adaptação de Iara Lima e, louve-se, competente direção de Carlinhos Nô. (Para compreender-se a dimensão do trabalho do diretor basta acompanhar-se Salomé e Herodíades nas cenas em que não são o foco dos diálogos).
Realizado com limitados recursos financeiros, a encenação extrapola as expectativas do observador. Surpreendeu-nos a capacidade, a dedicação e o desprendimento de todos os envolvidos na produção. A qualidade da apresentação permite-nos a sugestão de que seja levada a qualquer teatro deste país, mesmo com alguns percalços presentes em alguns personagens, justificados para o padrão itabunense, mas que podem ser facilmente superados. O que não desmerece o trabalho, até porque, as peças centrais do drama suplantam quaisquer falhas.
A mesquinhez humana, contida no contexto do poder; as intrigas e conflitos pessoais sobrepujando o bom senso; a eterna prática do alijamento do adversário para fugir-se à verdade que aquele expressa; a fraqueza dos poderosos no enfrentamento do cotidiano; a manipulação das paixões desenfreadas; os limites da virtude em relação à maldade humana; a convivência hipócrita com os preconceitos como veículo de manutenção do status; no fundo, a eterna resistência entre o revolucionário e o conservador, simbolicamente definidos na trama, incompreendida no final do Século XIX, diante do forte apelo sensual trazido pelo autor ao texto, forma de enfrentar uma sociedade hostil em compreender a alma humana em sua individualidade. Como há dois mil anos, cem anos ou agora. Uma lição de que a ética passa pelos mesmos parâmetros e vicissitudes em momentos históricos distintos.
O texto posto ao público, se não expressa o peso da real participação de Herodíades na decisão da sacerdotisa Salomé de exigir a vida do João Batista, sublimando sua vontade na paixão que o Tetrarca nutre pela filha, revolve todos os simbolismos da vida diante do destino através das Parcas (as três deusas da mitologia, Cloto, Láquesis e Átropos, as quais incumbia fiar, dobar e cortar o fio da vida), um excelente e inteligente resultado de adaptação, e que é a característica estética do peça, e que nos fez lembrar o trabalho de Zelito Viana, em Morte e Vida Severina (cinema) ao trazer o poema O Rio como leitura de fundo para a dialética tragédia/exaltação à vida de João Cabral.
O trabalho em si, retrata uma excelente direção, bons figurinos, cenário suficiente para situar e fazer compreender o tema. O que demonstra a qualidade e a riqueza do que pode oferecer o itabunense em seara tão ausente de reconhecimento.
O grande mérito do trabalho reside no fato de que, se o tema como abordado por Oscar Wilde, não choca ou indigna o público contemporâneo (acostumado às diversas tragédias do cotidiano, massificadas pela televisão, instrumento inexistente no final do Século XIX), faz permitir reconhecimento de valores de épocas distintas em discussão tão atual, prendendo o espectador nos meandros da tragédia que lhe é oferecida em espetáculo, onde a inexorabilidade da morte passa não só pela sensualidade da vida, mas pela certeza de que o destino fia, doba e corta a existência humana como única certeza. Unidade e harmonia, no tempo, no texto e no trabalho em si.

Por Adylson Machado