domingo, 15 de janeiro de 2017

Entre a tragicidade e a idiotia

A Norberto Bobbio a precisa observação de que percebemos "o grau de civilidade de uma sociedade pela forma como trata as crianças, os velhos e os prisioneiros", lembra Luiz Gonzaga Belluzzo em entrevista a RBA.  Posto o Brasil vigente sob essas premissas podemos afirmar que longe estamos da civilidade, caso não assumamos, de logo, o estágio de barbárie a ser brevemente alcançado. 

Afinal, congelar gastos públicos em educação e saúde por vinte anos e elevar idade para aposentadoria a 65 anos são de uma insensatez que beira os limites da loucura ou – pelo menos – internamento em hospital psiquiátrico, tal o nível intelectual dos ‘pensadores’ que aí estão, capazes de contrariar todos os técnicos mundo afora que abriram baterias contra os absurdos em curso.

A barbaridade e selvageria levadas ao topo de projeto de país para essa gente não descura de alimentar até a segregação como meio de auferimento de lucros, tornando a ampliação, administração e manutenção de presídios em objeto de ganhos para a iniciativa privada.

O estágio a que estamos chegando – com apoio propagandístico da mídia – dispensa buscar as razões por que existe a delinquência e a criminalidade. Isolar e matar o semelhante torna-se tônica de um discurso primitivo. Não sensibiliza parcela considerável da sociedade (alienada) o fato de que entre presos degolados em Roraima estavam seis que se encontravam em prisão provisória (há apenas um mês, um deles, de 25 anos, primário, pai de dois filhos, levado à cela por uma juíza que entendeu – convicção é assim – que traria riscos à sociedade permanecer em liberdade).

A desumanidade vai assumindo espaços, como se natural o fosse. Afirmam os técnicos e estudiosos que a proposta (de extermínio) do interino tornado presidente para a aposentadoria exigiria trabalhar até mesmo depois de completados os 65 anos como forma de garantir integralidade de proventos e manter o mínimo de dignidade como aposentado.

Segundo o G1, como somente 0,3% dos trabalhadores com carteira assinada exercem atividade hoje a conclusão é simples: idoso não encontra trabalho. Sob esse viés a aposentadoria – caso venha a ser alcançada – será com menos dinheiro para sobreviver.

Trabalhar mais tempo ou estar preso tem vinculação com o processo educacional ofertado. Mas, aproveitando o observado por Belluzo, em relação a Sérgio Moro, na entrevista ora disponibilizada, vivemos uma cultura de idiot savant, onde convicções e achismos suplantam a realidade e a exacerbação positivista pede apenas ‘mais cadeia’ e 'menos escola'.

Na esteira da genialidade atual, para estes ‘gênios’, a escola de samba Imperatriz Leopoldinense se encontra ameaçada por uma CPI no Senado, como o deseja o senador Ronaldo Caiado, do DEM e da UDR, porque está a entender (tem ‘convicção’) que o tema “Xingu – o clamor que vem da floresta” pode ter sido financiado por grupos contrários ao agronegócio.

Haja Festival de Besteira assolando o país (obrigado Stanislaw Ponte Preta). 

Umas trágicas; outras, idiotas.

Responsável
A culpa é do povo. Esse ignorante que está solapando o país com sua irresponsável sanha consumista. Comprando feijão caro etc. etc. Esse o bla-blá-blá do Jornal Nacional na quinta 12. 

Em nenhum momento levantou – ainda que em horizonte marítimo – a mínima responsabilidade pela política econômica implantada pelo interino tornado presidente.

Transferindo a responsabilidade para o povo até mesmo criou a singular “inflação pessoal”, aquela que nasce da perdulariedade de cada um habituado a comer, recomendado a suprimir gastos, em vez de reclamar contra a política econômica que está a nos encaminhar para uma crise humanitária sem precedentes.

Só faltou o Bonner dizer – como Cid Moreira na gênese do JN, no ano de 1968  “nunca fomos tão felizes!”.

Na olimpíada global o lançamento de peso atinge, em definitivo, o cérebro do que se diz telespectador.

Que raciocina em preto e branco.

Estavam errados, sim!
Reconhecem o erro cometido. Os “cabeças de planilha” – como os denomina Luis Nassif – na pessoa do ilustre André Lara Rezende, confessam o erro de suas avaliações econômicas apreciando o câmbio e lançando a Selic como instrumento de controle inflacionário.

Depois da desgraça consumada só nos resta ler Rezende (para crer) e Nassif (para ratificar a denúncia levada a termo ainda no limiar do Plano Real).

Sem culpa alguma
Execrado e absolvido. Como absolvidos os demais alvos da operação policial que visava – em outro estágio da lawfare – atingir o PT.

Marcelo Auler traz à tona mais um caso. Emblemático o título: A imprensa que acusou cala-se na absolvição.

Com todas as letras
A ONU responsabiliza o STF pela (não)redução da população carcerária. A pancada levou a presidente do STF Cármen Lúcia a convocar os presidentes dos Tribunais de Justiça para um esforço concentrado para agilizar processos de presos.

Poderia, também, ter exigido dos juízos criminais e de execução penal das comarcas igual iniciativa.

Trágico que uma solução para a superlotação nos presídios tenha sido buscada depois do festival de degolas despertando da letargia o Judiciário. 

Muito voltado, ultimamente, para ajudar a iniciativa privada que se alimenta de presos. Tanto que legitimou o recolhimento à prisão antes de transitada em julgado a sentença condenatória.

Chegando lá
O escancaramento do escândalo envolvendo o PMDB em falcatruas através da Caixa Econômica Federal, sob a competente gestão de Geddel Vieira Lima, em parceria com Eduardo Cunha, à frente da vice-presidência da Diretoria para pessoas jurídicas, exercida em governos petistas.

Ainda que – mais uma vez – a bandidagem esteja vinculada ao PMDB não custa Lula e Dilma serem acusados por Procuradores da República com base na ‘convicção’ de que sabiam de tudo.

Finalmente!
Oh, glória! Finalmente empresas estrangeiras vão atender à demanda da Petrobras. Ainda que acusadas de corrupção, como denuncia Joaquim de Carvalho no DCM.

Licitações comandadas pelos mesmos ladrões da época de FHC.

Mais prazo
Assim trabalham. Levantam suspeitas, amparadas em ‘convicção’ (“eu acho”), não conseguem provas e vão pedindo prazo para ver se ‘descobrem’ alguma coisa. Enquanto a imprensa vai divulgando... divulgando...

Desde que Lula seja o alvo.

A fala de Lula I
" É importante a gente não ter vergonha de dizer que quer eleição direta. O (Michel) Temer (PMDB) quer ser presidente? O (José) Serra (PSDB) quer ser presidente? O (juiz de 1ª instância Sérgio) Moro quer ser presidente? Ótimo. Todo mundo que quer ser presidente tem o direito de se candidatar. O que não pode é querer ser presidente dando um Golpe, na base da canetada."

Faloooou!

A fala de Lula II
Da fala de Lula leva uma outra conclusão: pelo menos a de servir para que o Brasil deixe de ser motivo de gozação lá fora, como o posto no vídeo abaixo (legendado).

                     

Ajudando a entender
O texto do geógrafo norte-americano Brian Mier, publicado na Brazil Wire esmiúça a participação dos Estados Unidos no Brasil/2016. Aqui, no original e traduzido.

Aragão e o papel higiênico
O imperdível Eugênio Aragão:

Um julgador pegar carona com um réu a ser por ele julgado; um chefe do ministério público ir a Davos para ajudar a atrair investimentos numa economia que chama de podre, ou um ministro da justiça se esquecer de que negara meios a uma governadora para evitar um massacre, mas que agora, diz, vai dá-lo a um outro governador que faltou bater palmas para o banho de sangue no xilindró sob sua responsabilidade: tudo isso não é muito diferente do uso de papel higiênico nos dois lados. Mas quem fica com as mãos borradas somos nós que fingimos estar tudo bem.”

Mudando de plano
Estamos sepultando amigos, companheiros de música e de artes. De cantoria e de poesia. Gente que só dava alegria.

Na quarta, Aladino  ex-integrante do conjunto Os Apaches  voz encantadora do grupo, guitarra base enquanto trabalhávamos o contrabaixo e Aderbal Duarte solava e arranjava. 

Neste domingo Ramon Vane, que aqui trazemos como o Coronel de "Cacau Verde – nem tudo que reluz é ouro", de José Delmo.

A cada um nossa homenagem. A Aladino uma das músicas em que marcou uma de suas melhores interpretações no grupo, no original de Roberto Carlos; a Ramon Vane, uma foto da época em que o "Grupo de Arte Macuco" andou por Itororó, nos anos 80.

                  

domingo, 8 de janeiro de 2017

Chamem Moreira César

Ficou famoso como o “corta cabeças”. Para onde enviado retornava com execrável laurel, tantas as cabeças roladas pela degola. Enviado a campanha para massacrar Conselheiro e a gente de Canudos por lá morreu.

O que faz Moreira César neste ameno espaço? A lembrança de um passado que imaginávamos no limbo da história tornado presente a cada rebelião de presídio: cabeças cortadas. E não são cenas de Gláuber Rocha, Lucrecia Martel ou Almodóvar.

Sem cabeça, com a cabeça nas nuvens eram expressões para os desatenciosos, vagos. Alguns padecentes de alguma limitação mental não diagnosticada. Gláuber metaforizou em sua obra tudo o que se limita a cabeça (pensar, raciocinar, decidir etc.) no plano do corte da realidade, como expressando velhas estátuas gregas.

Nossos presídios abarrotados – não só pela dimensão criminosa fomentada, em muito, pelos meios de comunicação de massa, exaltando morticínios (quando oficiais) e perseguindo os três Ps que sustentam aqueles, mas pela incúria criminosa do Poder Judiciário e do Ministério Público, que mantém sob segregação milhares que lá não precisavam estar – constituem em permanente barril de pólvora com estopim aceso. Mais não se sabe porque a augusta imprensa não ‘investiga’ tais pocilgas.

Os que ali entram estão em nível de Inferno de Dante, em estágio mais profundo.

Na sanha privatista deram até de privatizar administração de presídios. Copiaram aqui o que não deu certo na corte originária (EUA).

Eis o novo espaço para 'cabeças cortadas'.

Semáforos
Quando funcionam todos respeitam, sabem que desrespeitá-lo implica em sanção. Quando não funcionam é cada um por si.

Alguma relação com o Brasil institucional de hoje é mera coincidência.

Autoridade não pode apagar semáforos. A redução de verbas para o sistema prisional, em 85%, nos últimos dois anos, anuncia uma chacina por semana. 

A única forma de serem vistos e ouvidos. 

Homo sacer
Em Roma existiu o homo sacer (Agambem dele trata em livro). Como em Esparta, onde o estrangeiro podia ser caçado, assassinado como um nada, um bicho qualquer. Em Roma como objeto sem nenhum sentido; em Esparta como experimento de aprendizado para os jovens.

Assim estão os que presos se encontram dentro dos paradigmas do sistema prisional brasileiro. 

A caminho da barbárie
Marx apontava – nos limites ofertados em seu tempo – as contradições que levariam o Capitalismo ao fim: a socialização na produção (capital e trabalho juntos produzindo) e a concentração na distribuição (o capital se apropriando do resultado da produção (riqueza).

Em estudo recente, na linha exposta por Thomas Piketti, Pete Dolack retoma o tema do aumento da desigualdade como espada mortal para o sistema.

Sobrando
Caso não construamos escolas agora daqui a 20 anos não haverá dinheiro para construir os presídios que se tornarão necessários. Uma profecia previsível de Darcy Ribeiro no início dos anos 80.

A sequência de desmandos – que vão da inoperância do Poder Executivo a do Poder Judiciário, que aliado ao Ministério Público, somente vê na prisão fechada a solução para o crime – leva, em fase acelerada, para o caos a sociedade, vítima final.

O sistema prisional – sob a égide de conceitos neoliberais – torna-se ‘negócio’ rendoso para a iniciativa privada, seja através do fornecimento de alimentação, seja pela administração prisional. Tudo pago com o dinheiro do povo.

Para quem tem prisão como ‘negócio’ quanto mais preso melhor.

A lucidez de uns poucos incomoda e nem é levada a sério. O dito por Darcy Ribeiro fora retomado, em termos práticos, pelo senador Roberto Requião, em 2014, quando alertava que dos que se encontram presos/confinados 43% o eram em regime provisório e dos restantes 57% mais de 80% “condenados por delitos de menor gravidade”.

No retrovisor da realidade – que não é recente – a omissão estatal do Poder Executivo (recursos), do Poder Judiciário (que condena e não faz cumprir ou fiscalizar a execução da pena) e do Ministério Público (que não cumpre com seus deveres de fiscalização da lei e dos direitos individuais entre eles) lança no colo da sociedade a tragédia, que se estenderá às ruas, na dimensão em que ocorre nos presídios.

Afinal, a formação de monstros exige alimento para eles. Nós. 

Aragão
Do ex-Ministro da Justiça, Eugênio Aragão:

“A casta judicial e a do ministério público são os maiores responsáveis, com seu cego punitivismo, pela tragédia que já há muito se anunciava: como as prisões não lhes dizem respeito, seguem entupindo-as com o “lixo humano” até o sistema enfartar. A saída da crise pressupõe, pois, mudança de atitude dos órgãos empenhados na persecução e jurisdição penais, carentes de uma política criminal que os faça priorizar alguns ilícitos sobre outros e não fingir que obedecem cegamente ao princípio da obrigatoriedade da ação penal, sem distinção.

Serra, ladrão
Nunca o caro leitor lerá isso na grande imprensa. Mas o fato é de fácil apuração: a famosa denúncia de Flávio Bierrembach (de que Serra era ladrão), que resultou numa ação de JS contra o acusador, que queria provar, na Justiça, o que tinha dito, através do instrumento processual denominado “exceção da verdade”.

José Serra desistiu de provar que não era ladrão. Para lembrar

E agora, Moro?
O tucanato em cheio – e José Serra em particular – é o resultado das delações da Odebrecht. A confirmação do desvio de 23 milhões, depositados em conta na Suíça, exige uma resposta do ‘justiceiro’ Sérgio Moro: pelo menos uma condução coercitiva do Ministro, através de um pedido ao STF.

Pedro Novis detalhou que parte do dinheiro foi entregue no Brasil e outra transferida por meio de depósitos bancários em contas no exterior, a de Ronaldo Cezar Coelho (PSDB), integrante da coordenação política do tucano em 2010.”

Que lindo!
Eis o ápice da punição para o ilustre intermediário/detentor da propina:

“Então, em novembro, o empresário que obteve recursos recebidos da Odebrecht e de outros investimentos na conta na Suíça, aderiu ao programa de regularização de ativos no exterior, pela Lei de Repatriação.

Para isso, pagou um montante de 30% de impostos e multas sobre o valor que estava na conta no exterior. Mas acabou preferindo não repatriar o dinheiro. Com a medida da Lei, Coelho fica isento da aplicação de punições referentes a sonegação fiscal,  apropriação indébita, crimes tributários, evasão de divisas e lavagem de dinheiro.

Mas ao aderir ao programa de ativos no exterior, confirmou que parte desses recursos foram recebidos (sic) pela Odebrecht para a campanha de 2010 de José Serra.”

O crime efetivamente compensa. Para ladrão rico. Caso fosse pobre estaria perdendo a cabeça em qualquer rebelião de presídio.

O acidente
Incidente para o interino tornado presidente é detalhe. Não deixa de ter razão. 

Afinal o ‘acidente’ que o levou ao cargo não mereceu restrições, nem comentários. 

Como no mesmo tugir, o de Roraima.

Vai ser na base da ‘literatura jurídica’
O apoio de que Moro precisa vai se materializando. Na falta de provas (até estranhamente não obtidas para quem é acusado de ‘tantos’ crimes)  exige – dentro da lawfare – que esteja ‘legitimada’ qualquer iniciativa judicial contra Lula.

Pesquisa recente registra a crença da população, em 71%, de que Lula será preso em 2017 e – oh glória! – 51% acreditam que Lula é culpado do que lhe acusam.

Ou seja, a coisa programada está dando certo: a imprensa reverbera a culpa sem provas e a condenação virá por ‘convicção’.  Que já convenceu parcela da população.

Como fundamento doutrinário será utilizada a famosa teoria do domínio do fato que condenou a cúpula petista na AP 470: “não tenho provas... mas a literatura jurídica me autoriza a condenar" (Rosa Weber-STF).

Se não der certo a tempo a solução é o parlamentarismo ou a eleição indireta com prorrogação de mandato. 

Dedicação
Janaína Pascoal – aquela que recebeu 45 mil do PSDB para gerar uma absurda tese para o impeachment de Dilma – põe-se à disposição do paulistano para fiscalizar banheiros do Ibirapuera.

Que Lindo! E simbólico!

Reduzindo
O salário mínimo estava previsto para R$ 945,00. Foi reduzido para R$ 937,00. Retira da economia a bagatela de R$ 1,4 bilhão.

Mais 3 degolados em Manaus
Enquanto isso o Ministro da Justiça ensaia repetir sua 'boa ação' agrícola.



domingo, 1 de janeiro de 2017

O por vir

Por vir
Em tempo de clássico positivismo a nação tinha pela frente inquestionável e grandioso porvir. Cantado e decantado em hino e poesia. Na esperança da pátria grande a grandeza de seus filhos, amantes dela inveterados. Desfiles, bandeiras desfraldadas e hasteadas elevavam o nome do país e inflava o peito de sua gente.

O porvir era cantado nas escolas, desfolhado em leituras. Fazia de todos parte de uma glória por vir, da qual adubo para o solo regado por esperanças de Norte a Sul, de Leste a Oeste. Do Oiapoque ao Chuí de logo traduzido no que representava a grandiosidade territorial de uma nação de povo eleito para celeiro do mundo, evangelho de paz e catecismo do que viria para as futuras gerações.

Varado o terceiro milênio ensaiou maioridade. Não precisou de duas décadas para voltar ao que sonharam seus exploradores colonialistas.

Não mais porvir – dirá o poeta – mas um por vir dentro de um túnel sem luz e sem fim.

2017, antevéspera do novo golpe
Ao que parecem demonstrar certo colunismo político da imprensa amestrado/golpista estamos na fase das favas contadas. Contados os dias para o interino tornado presidente. Já redigimos neste espaço nossas angústias a se confirmarem com a não eleição em 2018 nos moldes constitucionalmente reconhecidos.

A continuidade de Lula como nome elegível em 2018 – impossibilidade de a antiga oposição golpista manter-se no poder, ora usurpado – levará à supressão do processo eleitoral vigente. 

Simplesmente com a implantação do parlamentarismo a partir de 2019.

Outra saída
2017 tem início com sinais de aprofundamento da crise institucional. A eleição de Lula – altamente viável a teor das pesquisas – é o sinal de alerta para os que defendem os interesses materializados no golpe que afastou a presidente Dilma Rousseff.

Houvesse certeza de eleição de algum dos atuais situacionistas risco não haveria de o barco ser mais entornado. No entanto, a manutenção da entrega do país justifica qualquer violação a mais.

Assim, duvidar não se deve de a eleição indireta – com o afastamento de Temer – coroar FHC ou quejandos com um mandato a ser prorrogado.

A legitimação da ditadura. Com apoio do Congresso e do Poder Judiciário (leia-se, STF).

Tempo escasso
Sebastião Nery revela em seu Folclore Político 1, a manifestação vaidosa de Gilberto Amado (que em Valparaíso, praia chilena do Oceano Pacífico, se percebia um infinito diante do outro “infinito”) em diálogo com Josué Montello lhe disse que não tinha (o Josué) assunto para conversa de duas horas com ele, e que ele  não teria paciência de igual tempo para com o autor de Cais da Sagração.

O tempo entre quem conversa varia conforme a condição de cada um dispor de temas, informações, dialetizações que possam ser compreendidas pelo outro ou tenha este argumentações e contrapontos intelectuais para ocupar o do adverso.

O Brasil está sem assunto para conversar. Não lhe dão nem cinco minutos. 

Ainda que gigante. 

Castraram-no tanto que mofa no canto do porão planetário, programadamente esquecido.

Ano velho
2017 surge como um ano findo. Vem com o gosto de comida estragada. Chega finado. Há tempos não se via um estado de descrença, de desesperança, de falta de perspectiva como no limiar deste ano, que somente faz sentido pela existência do calendário. Já nasce morto.

Que contrarie esta pessimista afirmação. Como absurdo otimista. 

Definitivamente acabou
Até Ronaldo Caiado, senador por Goiás, líder da União Democrática Ruralista (a Ku-Klus-Klan do campo brasileiro), porta bandeira do arrocho (e do golpe) grita por eleições já.

Vinculado ao DEM (que já foi Arena, PDS, PFL), expressão máxima do udenismo.

A manifestação de Ronaldo Caiado deixa claro que o governo do interino tornado permanente acabou. 

Respirará por aparelhos, até consumar o que se propôs.

O amor é lindo!
Na ausência de administração, de seriedade, de caráter, etc., etc., etc., estamos partindo para uma outra etapa da galhofa: transferir para uma mulher bonita a solução de problemas que não são dela. Tampouco por ela causados.

Coisas da Veja!

Devagar e sempre
A firmeza do 0,1% vai assegurando o sucesso da política de emprego do interino tornado permanente. Não o devagar e sempre da paciência em busca do progresso. Mas da persistente atuação governamental em defesa do desemprego. Que já bate os 12% em números oficiais... como no final do governo FHC.

Boia
A indagação em qualquer esquina ou boteco gira em torno do porquê sustentam o interino tornado presidente. 

Nada lhe é favorável. Nega tudo a que prometeram por ele. Ministeriado por parcela considerável da grande quadrilha nacional já nasceu desmoralizado e se desmoraliza ainda mais a cada ‘ministro’ afastado. O Palácio do Planalto tornou-se o covil da matilha (salve-se os lobos reais!).

Por que permanece? A melhor resposta é a pergunta: por que chegou lá.

Vista sua interinidade a partir do proposto fácil fica para que serve e a quem serve.

Ao povo se afogando nada mais que uma bigorna de 55 quilos como boia.

'Hoje é sexta-feira!'
Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, pode alimentar a solução para prender Lula. Como não encontraram nada até agora que comprove ilícito cometido pelo ex-presidente, diante do tempo perdido, podem ter encontrado a solução/prova: cerveja.

Lula – vejam o absurdo! – teria sido instado a elogiar a cerveja Itaipava.

Fez justiça
Respeitar quem não está formalmente acusado é respeito à cidadania. Aécio Neves – em que pese irrefutáveis as provas contra sua imaculada pessoa – prestou declarações a Polícia Federal em Brasília. Ninguém saberia se não fosse a imparcial postura da revista Época.

Não entendemos – diante de circunstâncias idênticas – que o ex-presidente Lula tenha sido sequestrado, naquele 4 de março.

O leitor entende...

Compatibilidade
Um palácio de governo tem uma representação simbólica significativa. Ali está o poder nacional, de onde emergem as decisões para beneficiar sua gente, amparado nela para administrar em seu proveito (dela).

Imaginar uma crítica ao próprio palácio, lavado por urina humana e animal, pode demonstrar – mais que a licença humorística do autor – o nível de degradação por que passam as instituições. STF rodeado de urubus, Legislativo apinhado de ratazanas, Executivo mijado por Papai Noel e suas renas.

Simbolicamente lavado com o único saponáceo líquido compatível.

Dois tempos
Pessoa que integra a equipe de servidores do Palácio da Alvorada revelou a um amigo que ficou impressionada com o que viu no primeiro dia depois da posse Lula, em 2003: procurou por D. Marisa e não a encontrou. Havia saído com o motorista para fazer compras em uma feira livre. Pretendia – como serviu – fazer uma feijoada para Lula. Recebeu a lição de que tudo que desejasse lhe(s) seria servido. E a admiração da funcionária, encantada com a simplicidade do casal.

Maria Antonieta, rainha de França de Luís XVI, teria dito – diante da falta de pão para o povo – que o populacho comesse brioche. 

A turma não esqueceu e quatro anos depois lhe tirou a cabeça do pescoço em 1793.

Para entender 2016
Basta relembrar das declarações de Sérgio Machado, na conversa com Romero Jucá ainda em março de 2016. Está tudo ali. O melhor registro histórico dos fatos que levaram ao afastamento da presidente Dilma Rousseff.

"Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel"
"Estancar a sangria"
"O primeiro a ser comido vai ser o Aécio"
"Quem não conhece o esquema do Aécio"
"Fui do PSDB 10 anos, não sobra ninguém"
"Conversei ontem com alguns ministros do Supremo. Os caras dizem 'ó, só tem condições sem ela. Enquanto ela estiver lá essa porra não vai parar nunca"
"Michel é Eduardo Cunha"
"Só Renan esta contra essa porra.'porque não gosta do Michel, porque Michel é Eduardo Cunha'. Gente esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra. "
"É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional. Com o Supremo, com tudo. Aí parava tudo."

Villa-Lobos, por Ana Vidovic
Estudo n. 1, para violão.

                       

domingo, 25 de dezembro de 2016

Peru da vez

O peru da vez I
Particularmente não gostamos do Natal convencionado, farisaico, vil apelo ao consumismo, exauridor de economias carentes. Esquecido da razão que norteia sua lembrança. Festa individualista lançando às profundezas a realidade de milhões que não dispõem do mínimo para efetivá-lo no compasso das exigências do mercado, basta que se veja os nomes dos produtos ‘necessários’ à ceia.

Texto nosso, Epifania (disponibilizado na janela crônicas, neste blog, ou no Google), contém o sentimento do escriba em relação ao festejo.

No plano da coletividade nacional estamos chegando ao final de um ano em que se viu de tudo. Incluindo o que não se devia ver. Agravado com o fato concreto de que vivemos o pesadelo de estar naquele país que até um ano atrás era outro, ambicionando tornar-se uma nação moderna, disputando espaço com potências e que passa à tragicidade de ser ator de ópera bufa. 

O desmonte do estado nacional consuma-se à velocidade de lince pelos abutres e hienas que dele fazem repasto, arautos da improdutividade, da não geração de riquezas, a consumir o futuro e a lançar às calendas as premissas constitucionais de um Estado de Bem-Estar Social.

Para não faltar nada ao desastre perfeito uma proposta de transformar o atual Congresso em Constituinte.

Particularmente nos sentimos vivendo o fim do Brasil no qual viemos ao mundo.

Neste Natal estão servindo o povo e o futuro que vislumbrava na bandeja.

Antes comia o pobre do peru. Agora é o peru da vez.

O peru da vez II
O peru de natal ofertado à classe trabalhadora soa ao famoso soltar a raposa no galinheiro.

Tem o peru (o povo) todo o direito de reagir.


Como possa! E com os meios de que disponha.

Educadamente, através de palavras!

Advocacia com dignidade
A advocacia tem sido vilipendiado nestes últimos tempos. Perde a cada instante o exercício de prerrogativas, muitas previstas no Estatuto e tornadas letra morta. A arrogância e prepotência de alguns delegados, promotores e juízes tem feito tabula rasa em relação ao sadio exercício da arte do ad vocare.

E não falta quem propague que o exercício sadio e ético da profissão é agressão a este ou aquele magistrado. Mormente quando o dito cujo é Sérgio Moro, cavalariço do capital estrangeiro, que defende com unhas e dentes interesses escusos à soberania do país, como tem feito nas audiências de um dos processos contra Lula sob seu comando.

A consciência cívica e valor da profissão estão sendo resgatadas, para o público, no papel exercido pela defesa do ex-presidente.

Faltando em Curitiba
Registra a História que um clérigo admoestou Pierre Cauchon, bispo de Beauvais, por condenar Joana D’Arc antes de dispor das provas de culpa.

Está faltando um para admoestar o Pierre Cauchon de Curitiba.

Por acúmulo
É a conclusão a que chega leitor na sessão de cartas da Folha: 

Mais uma vez o juiz Sérgio Moro aceitou denúncia contra o ex-presidente Lula, que é réu em cinco ações. Não sei aonde tudo isso vai chegar, mas a impressão que fica é que, se houver condenação, será pelo número de indiciamentos ou fortes suspeitas, pois provas, até agora, não há. Se nada for comprovado contra Lula, estaremos diante da maior campanha contra um político que este país já presenciou e a desmoralização completa da Justiça e do MPF.
ANDRÉ PEDRESCHI ALUISI (Rio Claro, SP)

Ave Moro morituri te salutant
O povo desapareceu das ruas neste fim de 2016. E não foram os preços. A falta de dinheiro, dívidas e insegurança asseguraram a catástrofe para o comércio. Que deve ficar reduzido em pelo menos 10%.

Desemprego real em 12%. Empreiteiras destruídas destruíram mais de 200 bilhões do PIB. Mais de um milhão de desempregados.

E a corrupção continua. Que o diga a composição do governo interino tornado presidente.

O país dos trabalhadores sem dinheiro neste Natal deve muito ao juiz Sérgio Moro. O Pierre Cauchon de Curitiba.

Os que vão morrer estão a saudá-lo.

Enquanto ele está a caminho dos Estados Unidos.

Jogo findo
Cabo Anselmo, Sérgio Moro e procuradores da Lava Jato – incluindo suspeitíssima participação do Procurador-Geral da República Rodrigo Janot – estão inseridos na linha de traição à Pátria, fazendo jus à medalha Calabar. 

A visão geopolítica leva ao – denomina-o Tereza Cruvinel  Game Over.

“O Brasil, de potência emergente e líder sul-americano, voltou a ser um país bananeiro. As grandes empresas de infraestrutura estão em frangalhos. A economia, na UTI. A projeção internacional do país, obtida na Era Lula, esmaeceu completamente. O governo Temer solicitamente atende aos interesses do capital financeiro hegemônico, ‘aproveitando a impopularidade’ para tomar medidas impopulares, socialmente regressivas. E a principal liderança do campo da esquerda, Lula, está sob o fogo da Lava Jato, para que não seja candidato. Para os interesses geopolíticos americanos, fatura praticamente liquidada. Para o Brasil, Game Over”.

Teses
Cabe ao ministro Gilmar Mendes, que afirmou que caixa 2 não revela corrupção, explicar porque entendeu que o apreciado no mensalão o era. 

Falando sério
O humorismo fica de lado quando a realidade faz chorar e não rir. Eis a reação de Benvindo Siqueira. 

                 

OAB
Recebemos mensagem de Boas Festas do Conselho Federal da OAB. Desejando “que 2017 nos traga união e tolerância”.

Com ela temos sido por demais tolerante. Inclusive ao inconstitucional exame de Ordem (a legitimação pelo STF apenas prova o corporativismo de ambos).

Como mensagem desejamos, apenas, que volte a ser a OAB que conhecemos: atuante em defesa do país.

Eugênio Aragão 
Aqui a vigorosa reação do ex-Ministro da Justiça Eugênio Aragão ao procurador Dellagnol, mandando-o "baixar a bola".

Única solução

A proposta da anunciada reforma previdenciária, no quesito idade, tende a exigir uma outra reforma: na legislação civil, para dotar o nascituro, quando nada o recém nascido, de capacidade jurídico-postulatória para assegurar pretensão à aposentadoria.

Análise externa
Confirma golpe midiático liderado pelo sistema Globo. Trabalho acadêmico no exterior o debulha e expõe as vísceras. 

Tem origem em Teun A. van Dijk, da Universidade Pompeu Fabra, Barcelona